domingo, 15 de março de 2015

-Não dá.
   Ele largara a caneta que agora rolava livre pela escrivaninha. Se recusava a mentir a si mesmo. Por mais simples que se isso parecesse ser. Levantou-se e foi até a sacada. O vento ventava lá fora. Eram dias cinzentos. Por que os malditos dias cinzentos não iam embora? Ele queria escrever, mas nada parecia certo. Todas as histórias que tinham finais não tinham inícios. As que tinham inícios não tinham finais. O garoto gostava de uma garota, o garoto consegue a garota do jeito mais incrível. Por que não consigo juntar as duas pontas?
   O dia era cheio de poças d'água. Lá fora o mundo parece um multiverso de mundos refletidos um sobre os outros nas poças d'água. Era algo bonito. 
-É algo bonito.
Decidiu que deveria explorar esse mundo de poças, entender o porquê destes dias cinzentos. Sacou sua jaqueta marrom preferida, o seu maior guarda chuva e pois a si em marcha.
...
   O caminho era cheio de grama molhada que mesmo amassada pelo vento vibrava verde pela felicidade da umidade. Os padrões molhados embaixo das árvores eram sempre diferentes já que não se podia prever como as gotas iam descer pelas folhas. Talvez, somente, se você tivesse tempo de vida suficiente pra deixar de ser um pouco gente e se tornar um pouco árvore. Como os velhos que jogavam xadrez perto daquele pequeno bosque. Eles já não estavam começando a entender como era ter folhas, se prestasse atenção poderia ver como suas raízes começavam a crescer. Eles poderiam ficar o dia todo olhando a chuva cair pelas folhas daquelas mangueiras e barrigudas velhas e saber exatamente onde cada gota iria cair. Mas seria algo muito íntimo perguntar tal coisa. 

  Ele estava na porta do tal pequeno bosque. Não era grande coisa, mas era um templo de paz no meio dos recorrentes barulhos e cheiros da cidade. Uma ou outra alma corria fugindo da chuva. Ele se sentou num banco de madeira que estava mais ou menos seco. O céu não tinha o nublado bonito e liso que se assemelha a argila esmaltada. Era um nublado feio e granulado que dava agonia. Ele se encolheu mais dentro da jaqueta. Nevoa começava a se formar em volta. A névoa abafava todo o som. O som da água, das pessoas, o som daquele céu. Já não existia mais mundo. Existia névoa, o banco e ele. Por um momento ele se sentiu dono do seu destino. O que dizia era verdade. Não havia ninguém para lhe dizer o contrário, só existia a névoa.
 A sensação de estar tão absoluto e sem quem o desafiasse era bizarra. Ora, o que era ele? Um tolo? Era somente névoa. Não queria dizer nada. Mas isso também não importava. Mesmo assim ele procurava a razão. Ora, poderia invocar tau razão. 
-Eu quero saber o que isso!- Ordenou.
Névoa.
De repente ficou  atônito. Alguém havia lhe sussurrado? Estava ele ficando louco? Quem teria dito isso?
-Estou sozinho?- Perguntou.
Sim.
Ora, estava mesmo ficando louco. Pronto. Era isso, ficara tempo de mais lendo livro e enlouquecera como Don Quixote. Estava discutindo com a névoa como ele combatera barris de vinho. Mas se estava sozinho estava estava falando consigo mesmo.
-Apareça!- Exclamou.
De dentre as cortinas de névoa saiu uma figura de estatura mediana, de ombros largos. Numa jaqueta marrom. Ora, mas aquele era ele. Existiam ele, o banco, a névoa e, bem, ele.
-Aqui estou.- Disse o outro ele.
Ele ficou paralisado. O que deveria fazer? Ele pensou em ir pra casa e tomar algo pra dormir. Ou ir ao hospital. Ir a uma delegacia e pedir para ser preso. Pensou em se jogar da ponte e andar de bicicleta. Afinal era louco mesmo.
-Por que a surpresa? Nunca falou consigo mesmo?
Ele estava ainda mais surpreso, nunca havia percebido que seu nariz era tão torto e sua testa tão longa.
-Bem não. Bem sim. Sim. Não deste modo.
-Calma, não está ficando louco.
Ele sentiu subitamente um alívio. E ai sentiu desespero por estar aliviado por ter ouvido a si mesmo.
-Não imagino o que possa acontecendo então.
O outro ele estava impassível, não o surpreendeu já que muitas vezes era assim.
-Alguém com a sua imaginação devia estar menos surpreso. O que esperava que acontecesse quando teve uma oportunidade tal qual uma tela limpa como essa névoa?
Ele olhou o outro com mais atenção. Por que estava tão curioso sobre si? Já não sabia tudo dele? Por que estaria surpreso com qualquer coisa que ele mesmo fizesse? Vasculhou sua mente tentando definir o que era, tentando entender se o outro ele era ele mesmo.
-Sim. Sou você, não precisa de nenhum teste.
-Como você sabe?- Perguntou.
O outro olhou com ironia. Ele é você, claro que ele sabe.
-Está tendo uma conversa você mesmo, não é tão diferente do que o que fez no resto da sua vida. Só que agora está mais imaginativo.
-Então é tudo minha imaginação?
O outro deu de ombros.
-Se você quiser.
-Você é real ou não?
-Não cabe a mim responder.  
- Mas você sou eu caramba!!
Ele não se deu o esforço de responder.
A névoa em volta subia descia. O tempo parecia passar e estar parado. Por que iria querer falar consigo?Já sabia tudo de si. Voltou a sentar no banco. O outro sentou ao seu lado.
- O que acha desa névoa?- O outro perguntou.
-Você sabe o que eu acho.- Ele disse.
-É verdade.
Ai ficaram os dois sentados, olhando as cortinas brancas sempre mutante. Ou ele sozinho, se você gostaria de olhar desse modo.
-Eu só queria encontrar inspiração.-Ele disse.
-Não encontrou?- Perguntou o outro.
-Bem, acho que isso é tudo uma metáfora de como a inspiração está dentro de mim e como os dias são como a névoa, só páginas brancas esperando para serem escritas.-Parecia um bom sentido.
-Provavelmente é tudo besteira.- Disse o outro.
-É.
-Acho que vim mesmo foi procurar o porquê da tristeza desses dias que estão sempre nublados.
-E achou?
-Não, estou a falar sozinho.
O outro riu.
-Você vai sumir assim que eu sair dessa névoa? - Ele perguntou.
O outro o olhou.
-Você vai descobrir.
Ele não sabia o que esperar. Não sabia o que estava acontecendo. Mas sentia que suas respostas estavam em outro lugar.
Ele se levantou e seguiu seu caminho, o outro ficou sentado no banco. Ele não conseguia ver mais de um metro a sua frente, seguiu pela caminho de pedras que o havia guiado até dentro do bosque. A medida que andava a névoa ficava menos densa até desaparecer. Estava de novo na entrada do bosque.
Ele se perguntava o que diabos havia acontecido.

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